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Cultura Digital // autoria e interação


Cultura Digital – autoria e interação
por Bernardo Brant



Falar de Cultura Digital é pensar sobre os vários dispositivos de mediação presentes na nossa vida através das mídias digitais e não digitais que ainda co-existem. Isso significa dizer que no processo de digitalização do mundo estão presentes também informações e imagens produzidas a partir de tecnologias mecânicas e analógicas referentes a outros períodos da história. Por exemplo, a imagem de uma pintura realista do séc. XVI, produzida através de uma câmera obscura, origem da câmera fotográfica do séc. XIX, pode ser facilmente buscada na Internet no séc. XXI. O conceito dessa pintura enquanto imagem, código pictórico figurativo que quer representar a realidade, foi construído a cerca de 600 anos atrás. Esse mesmo conceito está presente nas imagens que vemos, hoje, nos telejornais, nos jornais impressos, na Internet, sem que a gente saiba disso. O que a gente sabe é que estamos diante de um aparelho de TV ou computador de última geração e a imagem mostrada é a “realidade”. De quem? Do fotógrafo e/ou do cinegrafista? Do editor e/ou do diretor de redação? Da linha editorial e/ou do departamento comercial da empresa de comunicação?

Antes, então, de “naturalizarmos” a Cultura Digital como se ela sempre tivesse existido é preciso pensar como o ser humano media/significa sua relação com mundo através da linguagem, ou, como as tecnologias digitais mediam a nossa relação com o outro e com as várias realidades. Afinal de contas, que Cultura Digital estamos construindo? É a que universaliza a necessidade de consumir produtos de “última geração” da Sony, da Microsoft, do Google? Como se imbricam ou se articulam no cotidiano da sociedade as culturas da oralidade, da escrita, da imagem, da informática? Sob que padrões/paradigmas estamos submetidos ou insubordinados? Como ser autor/sujeito diante das possibilidades de interatividade e conectividade? O que a publicação e o compartilhamento de informações possibilitam para o desenvolvimento humano e para ações coletivas?

De um ponto de vista tecnológico e de comunicação, a Cultura Digital - com seus gigabytes, suas bandas largas, celulares com câmeras fotográficas e de vídeo, orkuts, blogs, wikis, chats - reconfigura nossa relação com o tempo e com o espaço. “Tão longe, tão perto”, título de um filme do cineasta alemão Win Wenders, faz uma síntese das sensações de aproximação e distanciamento que essas tecnologias criam ao nos fazer conhecer/aproximar pessoas e coisas distantes dentro de nossas próprias casas. Tudo tão próximo e “real”, ao mesmo tempo, virtual e desconhecido. A tela da TV traz o mundo aos nossos olhos, mas qual é o nosso movimento em direção ao mundo? Inquietação... acomodação... angústia... E o tempo passando... passando... passando... muito rápido e a sensação de que a vida nos escapa sem que a gente saia do lugar.

Diante desse contexto é recorrente o discurso que diz da necessidade de crítica com relação às informações que estão sendo produzidas e difundidas pelas diversas mídias. No campo da educação e da comunicação fala-se em “educação do olhar” ou “leitura crítica de imagens”, da capacidade de selecionar e interpretar informações e imagens. Quais são os objetivos da crítica? Em que medida essa crítica cria estratégias de emancipação ou de regulação/controle? Segundo o pensador português Boaventura de Sousa Santos “todo pensamento crítico é centrífugo e subversivo na medida em que visa criar desfamiliarização em relação ao que está estabelecido e é convencionalmente aceite como normal, virtual, inevitável necessário”.

Ao olhar para as imagens veiculadas na TV, na Internet, nos jornais, em revistas e outdoors, muitas vezes, nos escapa a intencionalidade do que nos é mostrado. Segundo Pierre Francastel “do séc. XV ao séc. XX, determinado grupo de homens construiu um modo de representação pictórica do universo em função de determinada interpretação psicológica e social da natureza baseada em certa soma de interpretação de conhecimento e de regras práticas de ação”. Por exemplo, se observarmos um retrato pintado no séc. XV, A Dama do Unicórnio, do pintor italiano Rafaello vamos ver no primeiro plano uma jovem branca, burguesa e bem vestida (como uma aristocrata), sendo mostrada da cabeça até a cintura, centralizada no quadro apresentado com uma luz homogênea, ou seja, tudo bem iluminado, e atrás dessa jovem duas colunas, uma de cada lado e mais ao fundo um céu e uma paisagem. Qual a diferença que essa composição tem de uma apresentadora de um telejornal hoje? A princípio nenhuma diferença. E o que tem atrás da imagem da jovem? Se esse quadro tiver dependurado numa parede, atrás da imagem da jovem vamos ver a parede e não uma paisagem. Bom, era exatamente isso que os pintores buscavam na época ao se utilizarem do conhecimento matemático, da perspectiva e das regras de proporção para construir essa idéia/ilusão de profundidade, de algo que está em um outro plano, que buscava representar no plano bidimensional o espaço tridimensional assim como os nossos olhos vêem as coisas. E ainda ensinam na escola matemática, história e artes como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra.

No livro A Ilusão Especular, Arlindo Machado diz que “durante quase cinco séculos, as necessidades figurativas da civilização ocidental foram satisfeitas por um sistema de representação plástica do espaço conhecido como perspectiva artificialis... esse sistema, nascido e florescido no Renascimento, procurava obter uma sugestão ilusionista de profundidade nas leis “objetivas” do espaço formuladas pela geometria euclidiana. No caso, o suporte matemático parecia dar garantias de racionalidade às suas projeções gráficas. Dizia-se, naquela época, que por ser um sistema de representação fundado nas leis científicas (leia-se euclidianas) de construção do espaço, a perspectiva renascentista deveria nos dar a imagem mais justa e fiel da realidade visível. Dizia-se mais: essa mesma perspectiva deveria corresponder à visão da natureza mais próxima daquela que o olho humano obtém através do seu mecanismo óptico”. Daí o estatuto de verdade que as imagens ganharam para se dizerem “realidade” sem no entanto nos dizer de toda uma construção histórica ( fruto da positividade cientifica e das reformas político-sociais do séc. XV) que, hoje, é utilizada por jornalistas, editores e diretores de redação para produzir informação, muitas vezes sem saber porque. Tipo “sempre foi assim” ou “é isso que o povo gosta” como se as pessoas nascessem gostando de tênis Nike ou de Mac Donalds.

Se o padrão de imagem criado no Renascimento está presente nos dias atuais nas paredes de nossas casas, no padrão Globo de Produção, no padrão CNN, no padrão Hollywood, não significa que outras formas de composição, expressão plástica ou de representar o mundo não existissem ou não existam. O que se elegeu naquela época foi uma determinada forma de ver o mundo, com sua centralidade, seu ponto de fuga, onde todas as linhas do quadro convergem para um único ponto e uma visão uniocular como se fosse a mais “natural “, assim como ver o mundo todo como “ocidental”.

No campo das artes plásticas movimentos como impressionismo, surrealismo, cubismo, expressionismo buscaram romper com o código de imagem renascentista. Todos esses movimentos tiveram expressão também na literatura, na música, no cinema e estavam sintonizados com uma mudança de pensamento e visão de mundo do séc. XIX. Por exemplo, ao mesmo tempo em que o movimento surrealista se inspirou no pensamento de Freud e na existência do inconsciente, uma vertente dos surrealistas fazia sérias críticas a sociedade industrial, implantada no final do séc. XIX, com seus padrões de seriação, homogeneização, fragmentação e verticalização, adotados pelo sistema educacional para formar um trabalhador adequado para a indústria, num mundo onde quem não é “letrado” não tem saber algum.

Se no campo da visualidade se rompia com o padrão estabelecido, no campo da educação se padronizava processos de transmissão de conhecimento fragmentado, seriado, em disciplinas específicas, com critérios de homogeneidade. Talvez por isso, a escola baseada na linguagem escrita vive, hoje, uma dissincronia histórica na sociedade da imagem, e daí a sua dificuldade de lidar com as linguagens visuais.

Essas referências e discussões fazem parte da metodologia do projeto Latanet, criado e desenvolvido pela ONG Oficina de Imagens, para trabalhar fotografia e Internet fazendo um percurso que vai das câmeras obscuras, desenvolvidas pelos pintores nos sécs. XV e XVI, à imagem digital. Com uma caixa de papelão/câmera obscura (que reproduz o fenômeno físico-ótico da formação da imagem pela luz) se produz fotografia e com a Internet cria-se um canal de comunicação para os alunos trocarem imagens, textos e suas visões de mundo. A proposta é aliar tecnologias artesanais às tecnologias digitais na construção de processos de comunicação que relacionem áreas do conhecimento como física, química, matemática, história, geografia, informática, literatura (ver www.latanet.org.br), Uma das principais atividades é a observação e análise de reproduções de pinturas de vários momentos da história da arte. Através do exercício de interpretação livre e de análise comparativa surgem os diversos modos de ver e se expressar. A intenção é dizer que não existe um único padrão estético e que cada cidadão pode exercer o seu direito de expressão e opinião, sendo autor/sujeito da construção do conhecimento. Ao mesmo tempo, busca mostrar como se dá o processo de produção de uma imagem, as escolhas e os recortes da edição, os vários pontos de vista que existem sobre a “realidade”.

Ao trazer as referências iconográficas de muitas das imagens que vemos no nosso dia a dia, como uma forma de aprender a “ler imagens”, a metodologia Latanet discute as relações entre comunicação e educação e como a escola tem lidado com as informações mediatizadas que os alunos trazem para o seu espaço. No senso comum comunicação é o meio jornal, rádio, TV e Internet sem se ater aos diversos processos de comunicação e possibilidades de interação no qual estamos envolvidos. Por exemplo, quando um professor está numa sala de aula, que tem a mesma organização de espaço de uma sala de aula do séc.XV, ele se vê como um educador em um processo de ensino- aprendizagem não se vendo como um comunicador, e que aquela organização do espaço ( o professor na frente e os alunos enfileirados) pode configurar um tipo de comunicação muitas vezes transmissivo e unilateral, assim como tem sido a mídia televisão. Dependendo da forma como o professor se comunica (escuta e dialoga) seu aluno vai ter diferentes compreensões com relação ao que está sendo ensinado. Os processos de falar, escutar, dialogar, significar através da expressão individual e coletiva ganham espaço e velocidade com as tecnologias digitais através de imagens, textos, sons. A possibilidade de ser autor aumentou com os blogs, com o orkut onde cada um pode ter sua página para produzir e intercambiar informação com um grande número de pessoas. Existem várias “comunidades” que discutem a idéia de conhecimento livre que possa ser compartilhado por todas as pessoas, produção de conteúdos utilizando softwares livres, oas, comas pessoas, com liberaççsa ser compartilhado por todas as pessoas, com liberaç para a comunicaç com co quadro convergem intercâmbio de tecnologias. Mas com que objetivos? Comunicar apenas por comunicar? Que conhecimento está sendo produzido no cotidiano das pessoas através do universo digital?

A Convenção dos Direitos da Criança adotada pela ONU, em 1989, propõe como direito “a informação e o entretenimento de qualidade” como resultado de uma série de movimentos e discussões realizadas por pesquisadores, produtores de mídia e organizações da sociedade civil que, ao longo dos últimos 30 anos, discutem o impacto que as informações veiculadas pelas mídias tem sobre a formação de crianças e adolescentes ou de todas as pessoas. Daí a necessidade da família, da escola, das emissoras de comunicação, do Estado em se implicarem e se co-responsabilizarem por garantir uma produção de mídia de qualidade. A Classificação Indicativa proposta como política pública no atual governo federal vem como resposta a esse movimento e para garantir esse direito. Mais do que criar critérios, segundo faixas etárias e horários, para exibição de programas com cenas de sexo, drogas e violência o que se está reivindicando é uma programação de mídia que respeite as diferenças, a diversidade, a pluralidade de pontos de vista, a opção de escolha, “que visem promover o bem-estar social, espiritual e moral e a saúde física e mental” de crianças e adolescentes. Segundo a pesquisa Voz dos Adolescentes, realizada pelo UNICEF em 2003, crianças e adolescentes brasileiras passam em média 3hs30 min por dia em frente à TV, a maior média mundial. Ou seja, quase o mesmo tempo que uma criança ou adolescente ficam na escola. E como a escola está lidando com essa realidade? Que relação existe entre o que se vê na TV e o que se aprende na escola? Como que cada um de nós está inserido no universo da “inclusão digital”?

A Cultura Digital, assim como a pintura renascentista, pode também “impor” ao mundo padrões estéticos, tecnológicos, de comportamento, visões políticas e sociais da realidade. No uso coloquial da palavra, é possível dizer que “pra gente não ficar de banda”, só nos resta compreender melhor os conteúdos e mensagens que estão circulando por todas essas bandas largas da contemporaneidade.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

FRANCASTEL, Pierre. A realidade figurativa. Trad. Mary Amazonas Leite de Barros. São Paulo: Perspectiva, 1982.

MACHADO, Arlindo. A Ilusão Especular. São Paulo: Brasiliense, 1984.

SANTOS, Boaventura de Sousa. A Crítica da Razão Indolente: Contra o Desperdício da Experiência. São Paulo: Editora Cortez, 2000 (4ª edição).





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