Ocupar-2006 // O espaço como evento
O espaço como evento
por Rachel Costa, entrevista com Ana Paula Baltazar
Ocupar Espaços físicos e virtuais é a proposta do projeto e, para isso, a idéia é oferecer,durante os circuitos audiovisuais, dispositivos de interação pelos quais as pessoas manipulam imagem e som utilizando-se de seu próprio corpo. Como isso será feito é o que explica a arquiteta Ana Paula Baltazar, que pesquisa as possibilidades de virtualização da arquitetura em seu doutorado na Bartlett School of Architecture na University College London.
Ana Paula participa do Ocupar Espaços junto com outros membros do Lagear, e são eles os responsáveis pela proposição dos dispositivos que irão permitir a interação entre pessoas, espaço físico e virtual. Nesse bate-papo, a arquiteta fala sobre ciberespaço, espaço real, interfaces, favelas e tecnologias que serão exploradas pelo projeto.
A tecnologia digital altera as relações sociais?
Apesar das tecnologias digitais, ou tecnologias da comunicação e da informação, já serem praticamente onipresentes no nosso cotidiano (o telefone celular é um exemplo disso), ainda é muito cedo para concluir os modos como elas alteram as relações sociais. No início dos anos 90, a idéia de que as pessoas iriam viver cada vez mais no ciberespaço e menos no espaço físico começava a ser combatida. É importante lembrar que, quando pensamos no ciberespaço, devemos considerar que a única maneira de acessá-lo é a partir de um equipamento que deve existir concretamente no espaço físico em que nós estamos.
Em quais pontos espaço físico e virtual se articulam?
A “atmosfera” das relações e dos lugares físicos ainda não pode ser descartada das nossas necessidades, e não acredito que poderá ser algum dia. Existem impactos indiscutíveis das tecnologias digitais no nosso cotidiano, como por exemplo a facilitação da comunicação de grupos geograficamente distantes e o maior acesso à informação. Se por um lado isso é positivo, pois é em princípio democrático por eliminar o filtro de controle dos meios de comunicação tradicionais, como o rádio e a televisão, por outro, os usuários dessas tecnologias precisam se tornar muito mais críticos, pois a quantidade de conteúdo disponível é infinitamente maior que antes e, agora, sem nenhum filtro.
Nenhuma tecnologia por si garante a democracia ou a liberdade, o uso democrático e livre depende de uma corrente de ações que inclui o próprio usuário. A mudança social principal, no meu ver, é menos nas relações interpessoais e mais individual: os usuários estão mais críticos e menos passivos com a informação.
3) Qual o papel da arquitetura nesse novo cenário?
Pensar a arquitetura, nesse contexto, remete ao espaço como evento e não apenas como objeto construído e, portanto, estático. A interação é premissa de todo espaço arquitetônico, e mesmo os arquitetos mais deterministas acabam por criar obras que são apropriadas pelos usuários de maneira não prevista por quem as criou.
A arquitetura só tem a ganhar nesse novo cenário: começam a surgir discussões sobre a possibilidade de se pensar os espaços híbridos, onde os ambientes digitais sejam desenhados para serem projetados sobre o espaço físico somando a este aspectos antes impensados. Um exemplo é a possibilidade do usuário interagir com uma parede alterando-a com seu movimento no espaço. Alguns softwares livres, usados num computador comum com uma placa de vídeo barata, já permitem que mecanismos externos ao computador sejam acionados, modificando o espaço de acordo com a interação do usuário.
Uma das propostas do Ocupar Espaços é utilizar a Internet para conectar as duas comunidades. Qual o objetivo pretendido pelo projeto com a utilização dessa ferramenta?
A idéia de conectar as comunidades surgiu de uma oficina em que discutíamos o potencial de espacialização e interação das novas tecnologias. Hoje, qualquer pessoa com acesso à Internet está conectada a todos da rede. As duas comunidades já estão, em princípio, conectadas entre elas e com o mundo por meio de pontos de Internet. A motivação do Ocupar Espaços é não só possibilitar e incentivar a comunicação entre as duas comunidades – o que é importante, já que grande parte das pessoas não tem acesso à Internet –, mas, principalmente, trabalhar a espacialização dessa conexão.
A idéia é, usando um computador ligado à rede com programas como skype (que permite a comunicação por voz) e uma webcam, simular uma comunicação presencial – podemos ouvir e ver o outro. Contudo, esse encontro se dá num “não-lugar”, ou “lugar-nenhum”, já que cada pessoa está num espaço físico distinto, e o ambiente digital não gera nenhuma ambientação de fato para o encontro. Como acreditamos que o “lugar” do encontro é importante, ou seja, a atmosfera comum é importante, o Ocupar Espaços propõe a criação desse ambiente (que chamamos terceiro espaço) com imagens e sons (informações) de ambas as comunidades, a serem projetados em espaços físicos dos dois aglomerados a partir dos quais as pessoas vão poder interagir tanto com os ambientes digitais quanto com as pessoas da outra comunidade.
As favelas – espaço escolhido para o desenvolvimento do projeto – possuem uma ocupação do espaço físico bem peculiar. Quais as peculiaridades e potencialidades dessa forma de organização e como isso será utilizado no projeto?
O que mais me interessa no espaço das favelas não é a configuração em si, mas a dinâmica de sua produção. A configuração é fruto de um processo de negociação dos próprios moradores, somado às condições topográficas, à capacidade de cada um investir na construção de sua casa, etc. A produção do espaço na cidade formal, das construções legalizadas, tem muito que aprender com essa dinâmica. Não estou fazendo apologia à pobreza, à precariedade de infra-estrutura ou à estética das favelas, mas tentando voltar o olhar para o processo informal, dinâmico e sem planejamento prévio do qual elas são resultado.
As intervenções externas nas favelas, usualmente, seguem um de dois pressupostos, ambos preconceituosos: ou se baseiam na lógica conservadora, que parte da idéia de que o favelado é um marginal em potencial; ou se baseiam na lógica progressista, que o considera um bom selvagem vitimado pelas circunstâncias. Nos dois casos, a periferia é isolada da cidade da qual faz parte e a intervenção institucional (governamental ou acadêmica) ignora completamente a lógica de (sobre)vivência da comunidade, suas dinâmicas e peculiaridades. O projeto tenta explorar esse potencial dinâmico da produção do espaço da favela. Em vez de criar intervenções e levar para os aglomerados pontos de vista externos e preconceituosos, estamos tentando criar com os moradores imagens e sons das comunidades. Esse material servirá de base para os ambientes digitais interativos, gerando um terceiro espaço que só acontecerá de fato com o engajamento participativo das comunidades.
O objetivo é que sejamos como programadores, que criam um “lugar” de conexão que permita uma apropriação imprevista, em conformidade com a lógica informal da própria favela.
Qual a importância das tecnologias que permitem a sensação de ocupação dos espaços por meio de recursos virtuais e por que o projeto utiliza esses recursos?
Um dos maiores problemas do ciberespaço é a dificuldade que temos para nos apropriar dele, para termos a sensação de pertencimento a esse lugar. A pesquisa da tenda digital (interfaces digitais de baixo custo e baixa tecnologia desenvolvidas na Escola de Arquitetura da UFMG) visa superar esse problema: o ambiente de imersão interativo promove um deslocamento do ambiente digital da tela (que a gente assiste) para o espaço (que a gente experiencia).
O Ocupar Espaços tem a intenção (ou pretensão) de deslocar a “instalação” digital da tela, do espetáculo, para o espaço, a experiência. O objetivo principal é, a partir da ocupação do espaço físico com as tecnologias digitais, instigar as pessoas a se engajar nesse lugar com as propostas que acharem mais interessantes. Estamos tentando criar um ambiente onde seja possível se manifestar politicamente a partir da ação (e não só do discurso) e repercutir fora do seu próprio espaço geográfico.
O circuito demanda interação e participação dos presentes. Já estão definidas as formas de participação que serão requisitadas do público? Existe a preocupação de se garantir essa participação?
Não há como garantir a participação a partir de uma estrutura ou interface, ainda que tenhamos a intenção que seja um sucesso e de que todo mundo queira participar do Ocupar Espaços. O circuito é experimental, inclusive está na categoria “novos formatos” do programa de fomento Filme em Minas. Claro que nossa experiência indica que as pessoas se interessam, participam, interagem e acham muito bom fazer parte desses eventos. Mas, no projeto, estamos experimentando uma coisa nova, que é tentar conectar duas comunidades que não se conhecem, e tudo pode acontecer, desde a recusa a participar, até ações hostis.
O importante é trabalhar com o imprevisível, criar interfaces digitais usando imagens e sons da melhor maneira possível para permitir usos inusitados e esperar que o público seja bastante inventivo na utilização que fizer dessas interfaces. Um exemplo ótimo aconteceu no Aglomerado da Serra durante uma das projeções que temos feito nas comunidades, quando algumas crianças ficaram brincando com a imagem projetada. Elas criaram uma espécie de diálogo com a imagem, sentando-se ao lado das pessoas projetadas, interagindo com a projeção de forma totalmente inesperada. Essa experiência nos faz otimistas quanto à participação e interação criativa das pessoas. A intenção é que, no dia dos circuitos, haja uma série de dispositivos de interação pelos quais as pessoas poderão manipular imagem e som utilizando-se de seu próprio corpo.
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