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Ocupar - 2006 // Novos espaços para a cultura da periferia


Novos espaços para a cultura da periferia
por Rachel Costa, entrevista com Reinaldo Santana



Desde 2003, o Criarte promove o resgate das produções dos grupos culturais do Aglomerado da Serra. Como explica o coordenador de articulação do projeto, Reinaldo Santana, o trabalho se baseia em um conceito: Mirar – que vem de Mobilizar o público do Aglomerado da Serra em torno da arte e da cultura; Interagir em espaços e relações com sujeitos culturais em um propósito comum; Reivindicar visibilidade e reconhecimento da cultura local diante da sociedade brasileira e mundial, dentro dos órgãos públicos; e Articular uma rede de trabalho cultural não apenas local, mas que seja também regional, nacional e internacional.

O Criarte participa do Ocupar Espaços contribuindo para a mobilização dos moradores do Aglomerado da Serra, além de integrar as demais atividades do projeto. Nessa entrevista, Reinaldo fala sobre a atuação do grupo dentro do projeto e da importância de se ocupar espaços para a produção artística dos aglomerados.

O Criarte tem uma função mobilizadora dentro do Ocupar Espaços. Como vocês tem feito essa mobilização e como o grupo se vê dentro do projeto?

O Ocupar Espaços é uma boa oportunidade para o Criarte, porque, dentro da sua proposta, desenvolvemos uma atividade junto à comunidade. Na fase atual, estamos realizando Circuitos de TV de Rua dentro de quatro das seis vilas que formam o Aglomerado da Serra. Nesses circuitos levamos as imagens que produzimos no Aglomerado, com a participação de moradores.

A exibição instaura um processo no qual a comunidade pode se enxergar. Estamos também em uma fase de planejar o evento, para que ele não seja apenas de vídeo, mas também cultural. Para que possa envolver alguma expressão artística das comunidades e articule os espaços físicos onde realizaremos as ações. Também estamos chamando o público para o diálogo, dentro do contexto de ocupar os espaços públicos e de produzir arte.

Essa proposta de atuar em mais de uma vila surgiu durante o desenvolvimento do Ocupar Espaços, não é?

Foi uma demanda da própria comunidade, porque a gente acaba centralizando as ações em alguns lugares, onde sempre acontecem os eventos. A idéia é de descentralizar isso, tirar desses espaços que são referência e levar para outros, permitindo que outras pessoas também fiquem cientes do que está acontecendo.

Além de explorar novos lugares, quais outras possibilidades você acha que o Ocupar Espaços abre para a produção cultural nos aglomerados?

Isso vem ao encontro de uma das ações que o Criarte está pensando, que é a elaboração de uma forma de comunicação entre as vilas. A partir de mapeamentos, a gente sabe que outras vilas também possuem artistas. O Ocupar Espaços mostrou um mecanismo, o audiovisual, que pode ser usado para a comunicação e para a interação entre essas vilas. A partir dessa experiência com o projeto, a gente está pensando em criar um circuito de audiovisual entre a Vila do Cafezal, Vila Marçola, Fazendinha, Vila Conceição, Vila Aparecida e Novo São Lucas.

Seria nos moldes do Ocupar Espaços, mas restrito ao Aglomerado da Serra?

Seria restrito ao Aglomerado da Serra e com foco no desenvolvimento cultural. Por exemplo: seria pegar, no Novo São Lucas, quais os grupos que existem lá e, junto com eles, produzir um vídeo que possa ser passado na Vila Marçola. E assim, produzir uma interação por meio das imagens e da cultura local, para que a própria comunidade se enxergue e se valorize.

Isso é uma possibilidade de gerar auto-identificação: você, de repente, está do lado de cá, na Vila Marçola, produzindo rap e, do lado de lá, no Novo São Lucas, também tem um grupo outro grupo lá? Justamente porque a gente não vê, porque o Aglomerado da Serra tem, hoje, uma extensão enorme. Acredito que o vídeo pode possibilitar uma aproximação maior entre esses grupos, nesse mecanismo cultural que a gente cria na comunidade.

Em relação à interação proposta pelo Ocupar Espaços, entre o Aglomerado da Serra e a Barragem Santa Lúcia – que não são áreas limítrofes e que são fisicamente separadas –, quais as expectativas de vocês em relação ao contato com outra comunidade pelo audiovisual?

Essa distância que hoje nos separa é só geográfica mesmo, porque a realidade em que vivemos é a mesma. Isso pode ser visto nos intercâmbios que temos feito entre as duas comunidades. É, também, um processo para que nós mesmos estejamos tirando um pouco daquela energia negativa que um espaço tem em relação ao outro: o pessoal da Serra sempre fala que a Barragem Santa Lúcia é perigosa e o pessoal da Barragem sempre diz o contrário. Então, quando a gente traz essa troca, quando um de lá, da Barragem, vem aqui, ou um de cá, da Serra, vai lá, a gente vê que não há diferença. É a mesma coisa: não tem nada de perigoso, são preconceitos criados dentro das próprias comunidades. Tem uma frase que fala que o preconceito que assola a própria comunidade é o mesmo que traz o coquetel da maldade. É aquele que, às vezes você tem e, por isso, não vai conferir, e, quando você consegue ir e se libertar dessa resistência, vê que não tinha nada daquilo que pensava. Aí você vê que é a mesma coisa e que o que eles também estão precisando é de articulação entre eles e entre nós, porque vivemos a mesma situação, o mesmo cotidiano.

Você colocou essa questão do preconceito entre as comunidades. Atualmente, como é a situação entre a Barragem e o Aglomerado da Serra?

Eu posso até falar por uma experiência que a gente teve no último domingo, quando nosso grupo, o Vozes do Rap, do Aglomerado da Serra, foi fazer uma apresentação na Barragem, com a Associação de Artistas do Papagaio. Foi uma experiência maravilhosa: a gente foi bem recebido e também pode conhecer um pouco mais da comunidade, tirar um pouco da imagem negativa de que o “bicho pega” no Papagaio. A gente quer fazer a mesma coisa com eles: realizar um outro circuito aqui, com grupos de lá para que eles conheçam um pouco o Aglomerado da Serra e interajam com os grupos daqui. A gente vê isso como uma troca de olhares.

O Ocupar Espaços traz, como uma das propostas, a ocupação não só dos espaços físicos como, também, dos espaços virtuais, com destaque para o uso da Internet. Você acha que essa idéia pode ser utilizada para a divulgação dos grupos culturais do Aglomerado?

Essa discussão é bastante importante, porque estamos sempre falando em inclusão digital porque, só aí, podemos, de fato, apropriarmo-nos da Internet. Existe um outro público direcionado para a era digital que a gente também tem que atingir. Nosso papel é divulgar nossa arte e temos que arrumar possibilidades para que isso aconteça.

Esse espaço que vocês estão tendo dentro do projeto abre uma perspectiva de utilização da Internet, tornando isso viável?

Quando a gente fala de inclusão digital é porque a gente ainda não está incluído. Uma das coisas que a gente briga muito aqui na comunidade é por um espaço físico onde tenha computadores para o acesso à Internet. Não são muitos os telecentros aqui no Aglomerado da Serra: eles são poucos e estão em poucos lugares, geralmente, em projetos sociais ou entidades. Não é uma coisa geral, para toda a população. A partir do Ocupar Espaços, a gente pode entrar nessa discussão sobre como se inserir nesse ambiente virtual e como chamar políticas públicas de inclusão digital para a comunidade.

Durante os Circuitos de TV de Rua realizados nas duas comunidades – que tiveram essa função tanto de divulgar o que está sendo feito, como mobilizar os moradores para o evento central –, o que você acha que foi mais importante?

Uma das coisas que chamou muito a atenção foi a autovalorização da comunidade e a importância das pessoas se verem. Quando você grava uma imagem aqui e depois vê o que foi registrado, vê pessoas que você conhece, isso tudo move a comunidade na direção de sua valorização.

E, nesse caso, você acha que é fundamental a participação de pessoas da própria comunidade no processo de produção das imagens?

A intenção era justamente essa: tinha um momento, o do “assalto de imagens”, em que os moradores se envolviam na produção. Eles pegavam a câmera e filmavam, com o olhar deles, o que eles queriam dentro da comunidade, às vezes contavam uma história ou falavam do trabalho que estavam desenvolvendo... Então a comunidade acaba se valorizando, querendo mostrar o que existe de positivo dentro dela.

E como você acha que essa imagem produzida pela própria comunidade se diferencia daquela veiculada pela grande mídia?

É o olhar que a comunidade tem dela mesma: é um olhar de valor, de beleza. Ela consegue se olhar e se valorizar quando se vê. Por exemplo, uma coisa é quando você vê um menino correndo atrás da bola e pensa “olha lá, o menino está jogando futebol”; outra é quando a comunidade olha aquele menino e vê que ele está descalço e consegue saber o porquê dele estar descalço – porque ele não tem condição de comprar sapatos. A comunidade consegue aprofundar mais: ela não só vê a pessoa fazendo aquela ação, como sabe o porquê. 

E qual é a concepção do Criarte de ocupar espaços?

Para a gente a dimensão é a de se apropriar daqueles espaços que não tem muita demanda ou, às vezes, que estão parados. A gente tem diversos projetos que se relacionam ao Ocupar Espaços, como propostas de circuitos culturais em praças públicas e parques, estamos também com o projeto Rede Muim, aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura Municipal, que é ocupação do espaço de uma escola pública com aulas de arte-cultura. O Criarte desenvolve uma série de ações nessa perspectiva de ocupar espaços dentro da comunidade, de dar visibilidade e de possibilitar caminhos para que os grupos possam mostrar seu trabalho





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