Ocupar - 2006 // Hora de aparecer no vídeo
Hora de aparecer no vídeo
por Rachel Costa, entrevista com André Hallak
Está chegando o dia do Circuito Audiovisual Interativo da primeira edição do Ocupar Espaços. O evento encerra a primeira fase do projeto, que envolveu o Aglomerado da Serra e a Barragem Santa Lúcia. Nesta entrevista, o membro da equipe de coordenação técnica do Ocupar Espaços, André Hallak, conta um pouco sobre como foi o processo de produção do projeto, como os vídeos foram criados e qual a estrutura planejada para o Circuito. André também reflete sobre os resultados até então obtidos e sobre como tem acontecido a interação entre as comunidades participantes e o audiovisual.
Durante o projeto, aconteceram oficinas sobre a utilização do vídeo dispositivo. Como esse conceito foi trabalhado e qual será a sua utilização na produção audiovisual do Ocupar Espaços?
O conceito de vídeo dispositivo é um desdobramento do conceito deleuziano de "dispositivo", que foi trazido para o Ocupar Espaços por uma oficina ministrada pelo professor André Brasil, da PUC Minas, e foi sendo modificado e remodelado de acordo com o andamento do projeto. A idéia central é realizar produções em vídeo que partam de uma provocação, mas cujos processos e resultados fujam do controle dos realizadores. Um exemplo disso é o "assalto de imagens", nome que demos ao primeiro exercício que realizamos seguindo essa proposta. Nele, a equipe do projeto vai às comunidades e entrega a câmera para pessoas selecionadas aleatoriamente, na rua. Os escolhidos devem filmar o que quiser durante um minuto. Eles recebem uma rápida explicação do funcionamento da câmera, escolhem o enquadramento e começam a gravação. O resultado desse processo, que foge ao nosso controle, constitui o vídeo.
Qual a importância para as comunidades de favela envolvidas no projeto de se ver nos vídeos produzidos por seus próprios moradores?
O fato das pessoas gostarem de se ver não é uma exclusividade dos moradores de favela. Dentro do Ocupar Espaços, a proposta de exibir pessoas ou lugares conhecidos ajuda a criar uma identificação entre a comunidade, os moradores, o projeto e o vídeo, o que é extremamente importante tanto para o processo, quanto para o produto final. Como o projeto é constituído pela participação das pessoas das comunidades, a parte criativa tem que contemplar esse envolvimento dos moradores.
O que as imagens já gravadas revelam sobre o cotidiano da favela?
Vou deixar para que quem assistir às imagens entenda à sua maneira. Posso falar da minha impressão contaminada pelo processo que estou vivendo no projeto. Temos visto comunidades que precisam de um espaço para se expressar tanto externa, quanto internamente. São pessoas que querem mostrar as mais diversas atividades e vivências, não se limitando a divulgar aquele mesmo conteúdo já exteriorizado e estereotipado que predomina nas mídias mais tradicionais. Esse espaço aberto para a divulgação colabora para despertar o interesse em participar do projeto.
Como foi o processo de produção - houve, de fato, envolvimento das comunidades? Aconteceram momentos de tensão na relação entre a equipe do projeto e os moradores?
No geral, o Ocupar Espaços tem cativado as pessoas e gerado interesse por onde passa, mas a participação efetiva precisa melhorar. Temos o grupo de criação coletiva, composto por pessoas da Oficina de Imagens, do Aglomerado da Serra, do Aglomerado Santa Lúcia e da Arquitetura da UFMG, mas precisamos conseguir envolver ainda mais as comunidades no processo de produção dos vídeos. Existe uma tensão natural no projeto que é a relação morro x asfalto. Grande parte do grupo de criação é de pessoas do asfalto, moradores da cidade formal. É sempre tenso quando pessoas do asfalto entram no morro para realizar qualquer tipo de trabalho. Este é, inclusive, um dos principais pontos do projeto: trabalhar essa tensão a partir de um grupo de criação coletiva no qual pessoas do morro e do asfalto trabalhem juntas.
Que tipo de interação é esperada durante os Circuitos Audiovisuais Interativos?
A primeira é a mais antiga das formas de interação: a participação. Esperamos que as pessoas estejam presentes no dia 26 de agosto, no Aglomerado da Serra e na Barragem Santa Lúcia. Além disso, o Circuito Audiovisual Interativo promoverá interações de diferentes formas, utilizando-se de recursos tecnológicos. Em um dos projetores que serão instalados no dia veremos a imagem vinda da outra comunidade. Também haverá uma cabine de onde a pessoa, utilizando um microfone e um fone de ouvido, poderá conversar com quem está no outro aglomerado. Uma outra projeção convidará o público a entrar, literalmente, na frente da imagem, misturando-se às pessoas que estão no vídeo gravado, criando uma interação entre quem está naquele lugar, no dia do Circuito, e quem esteve no momento da gravação. Essas são algumas das formas esperadas de interação, mas pretendemos também que outras, inesperadas, surjam no dia do Circuito.
Como o Ocupar Espaços pode criar e ampliar lugares para a produção e exibição de vídeos nos aglomerados? Qual a importância desse tipo de iniciativa para essas comunidades?
O Ocupar Espaços oferece várias formas para incentivar o aumento da produção audiovisual nas comunidades. A questão mais forte trabalhada pelo projeto é a potencialização do contato das pessoas das comunidades com os processos de produção de vídeo. Muitas vezes, os equipamentos para a produção existem, mas ficam com sua utilização comprometida porque as pessoas não sabem como usá-los. O Criarte, grupo cultural do Aglomerado da Serra, por exemplo, está adquirindo aparelhos para a captação e edição de imagens. Um de seus integrantes participa desta edição do Ocupar Espaços e, agora, entrará também na segunda, como câmera e assistente de edição. Assim, quando o Criarte tiver os equipamentos em mãos, poderá desenvolver projetos próprios relacionados
a vídeo, unindo a vivência com grupos culturais - que conquistou em seu trabalho no Aglomerado Serra - à vivência na produção de vídeos - que vem sendo enriquecida por meio do Ocupar Espaços.
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